Roteiros

Traços de Raul Lino por Sintra

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Em homenagem ao homem e arquiteto de tamanha sensibilidade e grandeza, Raul Lino, este roteiro fará visita às suas obras mais emblemáticas em Sintra, dedicando-lhe um olhar atento e disfrutando do seu enquadramento na paisagem sintrense. 
“O meu feitio tendeu sempre para a meditação e a independência atraía-me sem que o isolamento me assustasse. Corria e palmilhava a serra de Sintra em todas as direções, até à orla do Atlântico”.  
 
Raul Lino  
Nascido em Lisboa, aos 11 anos foi estudar para Inglaterra e, mais tarde, para a Alemanha. Aí frequentou um atelier do reconhecido Albrecht Haupt, um arquiteto alemão que o viria a influenciar profundamente.  
Desenvolveu um sentido de modernidade e universalidade, e, ao mesmo tempo, o respeito e amor pela tradição e preservação dos elementos portugueses. Foi nesta fusão que criou um conceito único de Casa Portuguesa, num diálogo íntimo entre a arquitetura e o lugar onde era implantada.  

“Ninguém me tira da cabeça que a salvação da paisagem, das árvores, da Natureza, dos monumentos, de muitas outras coisas, está na escola.”  
Em Sintra assistiu ao mais feliz dos encontros entre a natureza e a arte, e a sua filosofia de paisagem descobriu aqui um arquétipo.  Em 1903, foi colaborador artístico do livro “Paço de Sintra”, autoria do conde de Sabugosa com desenhos feitos à pena pela rainha D. Amélia, e elaborou reformas no Paço Real de Sintra.  
Entre 1930-40, procedeu a uma campanha de restauro, responsável pela introdução de vários elementos revivalistas, estruturais e decorativos, nomeadamente azulejos da “esfera armilar”, encomendados à Escola António Arroio e à Fábrica Viúva Lamego.  
Em 1948, aquando do 1.º congresso nacional de arquitetura, redigiu um parecer de zona de proteção do centro histórico, em torno do Palácio, em que “toda a construção seria fiscalizada pela Direção Geral dos Monumentos e Edifícios Nacionais, sob o ponto de vista das suas proporções, do seu carácter arquitetónico e da cor, para que não venha a criar uma nota discordante na paisagem, cujo motivo principal é constituído pelo monumento nacional”.  
Em 1953, exercendo funções de Superintendente Artístico dos Palácios Nacionais, entregou um parecer ao presidente da autarquia de Sintra, Dr. César Moreira Baptista, para a modernização do sistema de iluminação elétrica do Largo Rainha D. Amélia. Em janeiro de 1959, supervisionou as obras de modificação e alargamento da Volta do Duche.  Por todo Portugal é visível a obra de Raul Lino. Além de estar presente em Sintra pode visitar a Casa Verdades Faria-Museu da Música, no Estoril, ou a Casa Santa Maria, em Cascais. 

INICIEMOS O NOSSO ROTEIRO… 

EM SÃO PEDRO…
Por aqui fixou a sua residência e colaborou com a Comissão de Melhoramentos de São Pedro. 
Junto à Praça D. Fernando II, está a Fonte de São Pedro, situada numa das entradas do Largo da Feira de São Pedro (2.ºs e 4.ºs domingos de cada mês).  Projetada por Raul Lino, foi oferecida pela Junta de Freguesia, à Câmara Municipal de Sintra em 1928 e inaugurada em 1929.  No seu interior, atente a cúpula encimada pelas “chaves do céu”, atributos de São Pedro, e no sol radioso que envolve a torneira.  O tanque circular assenta numa coluna robusta e os bancos corridos estão forrados a azulejos inspirados em modelos setecentistas.  

 

SIGA EM DIREÇÃO AO CHALET DA FAMÍLIA LINO… 
Esta casa pertenceu à família Lino, onde o arquiteto passou diversos períodos.  
Raul Lino procurou nos seus trabalhos traçar um caminho diferenciador, que lhe permitisse encontrar os elementos que compunham a verdadeira génese da casa portuguesa, contrariando a estética eclética e revivalista, assim como a moda importada dos chalets de montanha que dominavam as construções de Sintra no final do séc. XIX e início do séc. XX. 

DEPOIS DOS MUROS E DO CASARIO, A PAISAGEM CAPTA A NOSSA ATENÇÃO. APROVEITE ESTE MOMENTO, NO JARDIM DA VIGIA… 
Um privilégio que se apresenta ao nosso olhar, num quadro vivo da serra com vista para o Castelo do Gregório, Castelo dos Mouros, Palácio da Pena e a Igreja de S.ta Maria.  
Este miradouro é também conhecido como Miradouro da Condessa do Seisal, uma antiga camarista da Rainha D. Amélia que viveu na Quinta da Vigia, homenageada com o obelisco edificado.  
Num documento dirigido à Junta de Freguesia de S. Pedro, datado de 1938, Raul Lino refere detalhes do seu projeto. Pela natureza do terreno, num declive acentuado e rodeado de rocha calcária, a graça deste recinto dependeu sobretudo das disposições de pequenos caminhos.  Foi recomendável para o local um espaço resistente às mudanças climáticas, de fácil manutenção e projetado para dar sombra e emoldurar o panorama da serra.  

SIGA PELA RUA DO ROSEIRAL… 
Quase despercebida, apesar de alguns pormenores únicos, encontra a Casa do Cipreste.  
Com morada na rua do Roseiral, Raul Lino projetou-a para ser sua habitação.  Na entrada principal, ao nível da estrada, não prevê o impacto que nos causará. Entre a vegetação, contemplando os palácios, ali ergue a casa.  
Foi construída num tempo curto (1912 e 1914) tendo em conta a complexidade e detalhes do terreno. Assente sobre uma antiga pedreira, a casa cresceu em 5 pisos distintos. No jardim, um lago reflete toda a fachada poente da casa, num efeito cénico. A centralidade da casa é a entrada, com um pátio principal que separa a habitação de família e o seu atelier. Todas as janelas são molduras para o Paço Real, Castelo dos Mouros ou Palácio da Pena, com a vegetação exuberante a entrar na casa subtilmente, envolvendo-se na sua vivência. Todos os detalhes assumem algo da personalidade de Raul Lino, que também concebeu parte do mobiliário e artes decorativas, como os desenhos nos azulejos. Num vitral pintou um Ciprestesímbolo que chamou para si vertical e livre, numa metáfora que se estendeu à casa. Na janela escreveu “Se tiveres de sobejo sê liberal. Se nada tiveres para dar, então sê um azad, ou um homem livre, como o cipreste”, Xeque Sadi de Xiraz.  
Na sua casa, tão especial, Raul Lino abraçou o amor pelas artes, organizou serões musicais e recitais de poesia. Germana Tânger foi uma das presenças habituais.   

CONTINUE EM DIREÇÃO AO CENTRO HISTÓRICO, ATÉ À FONTE DA SABUGA, ONDE FICA A… 

Casa dos Penedos  
Aproveite para desfrutar a vista privilegiada sobre o Palácio Nacional de Sintra, a Vila, a zona saloia e a costa atlântica. Da Volta do Duche, surge-nos no alto com imponência, honrando a vegetação exuberante que a rodeia.  
Raul Lino estabeleceu, uma vez mais, uma relação direta com a paisagem envolvente, numa profusão de volumetrias e desníveis, criando um magnífico enquadramento.  
Situada na encosta da serra de Sintra voltada a Norte, a Casa dos Penedos foi projetada e construída em 1922, como residência de veraneio para a abastada e aristocrata família de Carvalho Machado Ribeiro Ferreira, trabalhadores na área financeira. A família já tinha recorrido a Raul Lino para projetar as suas casas em Lisboa e Cascais.  
O projeto tratava-se de um palácio residencial, onde foram criadas dependências com funções destinadas aos funcionários, serviço, arrumos, parte residencial para os proprietários e hóspedes, várias salas de aparato e ainda uma parte social, com um grande salão de baile. Foi dividido em 3 pisos, com vários corpos que se desenvolvem horizontalmente no sentido este-oeste e coberturas diferenciadas. No seu interior existem painéis de azulejos de art déco e muitos detalhes, e uma preocupação com o aproveitamento da luz natural. Estamos perante uma residência verdadeiramente digna da aristocracia. 

CONTINUE O SEU PASSEIO ATÉ AO BAIRRO DA ESTEFÂNEA, E CONHEÇA… 

Casa de Francisco Costa (1900-1988)  
Construída entre 1926 e 1927, a casa reflete o “espírito do lugar”. Raul Lino e Francisco Costa criaram desde logo cumplicidade e as suas sensibilidades acertaram recantos e momentos propícios à contemplação e criação.  
O alpendre dava ao escritor um refúgio para sonhar, defronte para a serra, berço dos seus romances.  A paisagem envolvente e desafiante muito agradou Raul Lino, “um terreno descontínuo, de relevo muito variado, onde o céu nunca se vê num hemisfério total, com grandes variações de luz e sombra e uma vegetação que funciona como diferentes filtros de olhar”.  
Uma quantidade significativa das obras de Raul Lino, em Sintra, foram alterações ou acrescentos a imóveis das tradicionais quintas. Embora pudessem parecer intervenções menores o arquiteto encarou sempre o trabalho com responsabilidade, uma vez que se tratava de intervir em imóveis emblemáticos sem lhes retirar o espírito e era necessário encontrar uma ponte entre o novo e as preexistências, muitas vezes seculares.  
Ainda na Estefânia, encontra uma destas estruturas, o imponente pombal, projetado em 1920 para a Quinta de Santo António, na rua Câmara Pestana. 

CONTINUEMOS O ROTEIRO RUMO À COSTA, NAS AZENHAS DO MAR…. 

Depois da Praia das Maçãs e já na saída das Azenhas do Mar, do lado do mar fica a Casa Branca.  Foi a casa de férias de Raul Lino, construída em 1920, no alto da escarpa e frente ao oceano, numa ligação simples e pura com a paisagem e clima.  
Raul Lino abraçou o seu estilo na simplicidade e pureza das formas e cores, nos materiais e no rústico interior. Rodeada de luz, repare no telhado e paredes brancas, com as grandes pedras de alvenarias expostas.  
A poucos metros, fica a Casa das Arribas.  
Embora fazendo uso dos mesmos materiais e buscando a rusticidade, a Casa das Arribas apresenta uma composição completamente diferente daquela que o arquiteto imaginou para o seu “casebre de pescador”. Trata-se de um projeto de maiores dimensões, mas com um apurado sentido de proporção relativamente à esmagadora presença das escarpas e vegetação rasteira que a rodeia. A casa mantem-se com a sua beleza e singularidade. 

Aproveite para caminhar pelos trilhos entre vegetação salpicada de sal e o azul do oceano. 

Ponto de Partida: Arco do Ramalhão  
Ponto de Chegada: Azenhas do Mar  
Localização: Sintra  
Duração aproximada: 01h30m, de carro 
Tipo de Circuito: linear  
O que deve e não deve fazer  
Circule com o seu veículo apenas em zonas autorizada  
Nunca deixe objetos visíveis no carro  
Não realize percurso pedestres sozinho (se o fizer use roupa de cores vivas)  
Água e alimentos são sempre indispensáveis  
Respeite os sinais e indicações 11  
Não apanhar elementos de fauna e flora  
Não fazer lume  
Não acampar  
Não recolher amostras geológicas  
Não deitar lixo  

Números de Telefone úteis  
Números Nacional de Socorro (SOS) 112  
Número Nacional de Proteção à Floresta 117  
Serviço Municipal de Proteção Civil 800 211 113  
Guarda Nacional Republicana  
Posto de Sintra 21 924 78 53 Posto de Colares 21 928 90 78  
Polícia Municipal 21 910 72 10 / 21 910 72 20  
Bombeiros  
B.
V. Sintra 21 923 6200
B.V. Colares 21 929 0027

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Centro Cultural Olga Cadaval
Praça Dr. Francisco Sá Carneiro
2710-720 SINTRA
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